quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O barco é nosso.

Leu o título? Sim, o barco é nosso e você sabe disso. O barco e até a água em que ele flutua(va). Eu sei, joguei o remo fora. Não precisa me lembrar que estava turbulento, olhe, eu sei, mas só queria ressaltar que o barco ainda é nosso. Apesar de ter pulado na água e te deixado sozinho no meio do oceano. Apesar de desistir tão fácil. Você já sabia que o barco ia furar ora ou outra e eu sei que você detestou ter me visto nadar pra longe, pra muito longe. Mas o barco é nosso, lembra? Nossas iniciais e nosso amor estavam gravados. Nossos sorrisos e meus choros angustiados.
Você também não sabe, mas no meio da minha procura por um porto, quis te salvar, te tirar do frio e te aquecer num abraço. Foi difícil lutar contra esse tubarão que é meu ego e entre uma onda e outra afundei a procurar nossos remos. Em pouco tempo você conseguiu ajuda e uma boia enquanto eu lutava pra recuperar. Pra nos recuperar. E retornei tarde demais... Mas o barco é nosso! Ouça-me! O barco é nosso, as lembranças são nossas, as feridas são nossas!

Tô na costa. Tô tentando avistar você à deriva. Tô seca. Tô ao sol. Traga o barco. Tô te esperando.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

No Consultório:

- Cuidado, menina. Tanta fantasia pode causar-lhe dores terríveis.
- E quanto à realidade, doutor?
(Silêncio).

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Um céu azul.

Um céu azul. Imagem bonita, não é?
Nesse meu último aniversário, recebi várias felicitações. Dezoito anos, marcante e tal. Uma delas foi bem simples. Tão simples quanto suave. Como quando a gente recebe uma florzinha roubada. "Um céu azul pra você". Nada mais sincero que isso me foi dito. E se foi, minhas desculpas, mas não senti. E a gente só admite sinceridade a algo quando sente. Já fazem mais de quatro meses, mas tornei a lembrar disso e senti vontade de escrever só pra garantir que eu não esqueceria. Se bem que esquecer algo tão intenso é difícil, por ser raridade. Um céu azul. Minha alma sorri toda vez que penso nessa ideia, porque, vindo de quem veio, não poderia ser nada menos bonito do que imagino. Leve, doce.
Quando não estou com um céu azul na cabeça, penso na frase e logo são salpicadas umas nuvens, com um raio de sol aqui e acolá. Lindo. E só quem tem o hábito de pensar em coisas doces pode saber do que se trata. Poderia citar uma infinidade delas, presentes na natureza e até no que não é, mas prefiro que quem estiver me lendo tenha sua própria identidade de suavidade e beleza.
Não costumo escrever esse tipo de texto aqui, mas hoje senti necessidade disso.






Um céu azul pra vocês.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Dança comigo.



Me puxe, me enlace, me sufoque. Me tome, me chame. Tudo assim mesmo, com “me” na frente. Me queira. Vamos, garoto, põe aquela música brega, aquela valsa vienese pra tocar no seu radinho de pilhas e me leva com você. Agora.
Você passa e leva junto a metade da minha concentração, do meu sorriso, do meu dia. Vai lá fora, toma um ar e volta fingindo que nada aconteceu. Volta como se não soubesse que meu olhar te acompanhou além das paredes e bancadas. Volta como se os olhares que me olhavam também não olhassem pra você. Pra você e essa sua mania - que, desculpa, mas eu já conheço - de ignorar fatos e atos e sair de cena apressadamente, com seu andar ereto. Qual nada, garoto. Não ache que adquiriu maturidade suficiente pra passar por cima de mim assim, nem desvie esse olhar mais uma vez porque eu já vi. Encare. Cadê sua maturidade pra me encarar, agora? Cadê? Cadê as regras? Me mostre. Me faça alguma coisa. Me enrubesça, me ofusque. Me adapte, me cate. Põe o som, vai. Me chama pra dançar, faz como no sonho. Anda, porque o tempo corre e já está anos luz à sua frente. Não vacile agora, nem finja, mais uma vez que não sentiu o líquido do copo tremer na sua mão. Eu vi, não tem pra onde correr. Aliás, tem. Tem uma estrada até aqui, corre, vem cá, dança comigo.

domingo, 11 de setembro de 2011

O tempo é águia.

Não há mais disposição para escrever. A máquina cansa-me, as teclas estão emperradas e o tempo voa, menino. O tempo é uma águia. O tempo te supera, me supera, me faz te esquecer, me esquecer, sumir. O tempo é o enredo, essas teclas emperradas, o cenário. Divina comédia nós dois. A vida que escorria de minhas mãos, agora rolam feito água em cachoeira pelos teus ombros, tão caídos, cálidos. Parte de carne humana que eu quis pra mim, só pra mim. O tempo é águia. Repito quantas vezes quiseres ouvir. O tempo é sangue.

Menino. Você é somente um menino. Um menino e seus passos esperando para serem andados. Vai, anda, que o vento te arrasta. Vai, deixa a brisa pra mim. Porque o tempo é águia e já levou embora você. De mim.

Letras numa máquina emperrada... A brisa que aqui ficou leva meu recado pra você, menino. Adeus.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Cartas.

(...) Pois é, José, 'tão achando que estou com problemas só porque ando sossegado, calado, quase em paz. Pois é, José. Não abalo, não os culpo. Nunca me viram assim; natural que me tentem os instintos. Mas não adianta. Caminho seguro, tenho forças pra me sustentar, pra seguir adiante. Ando bem, não entendem. Vê aí se consegue avisar que o sossego pode ser o melhor amigo do homem, embora um cão possa correr ao seu lado na chuva. Diz que esqueçam essas leis que o mundo impõe, como se pra se mostrar feliz a gente precisasse sorrir o tempo todo, ou pra se mostrar normal, precisássemos ter uma paixão rasgando a alma. E que, por favor, parem de se prender em gaiolas de metal, enquanto o vento norte sopra sadio.
Ontem resolvi só observar. É fácil, se você fingi um certo grau de autismo - como colocar fones de ouvido no máximo, Zé - e observar pequenas coisas ao seu redor. Quero que experimente a sensação. Rostos, bocas que falam e não ouvem, sons que se chocam, sorrisos em fabricação e desmache... Observe, sinta. Depois de tanto tempo falando, tentando, agindo e coagindo, resolvi somente ser. Sei que és um dos que andam, talvez, preocupado e queria só avisar, que mesmo com toda essa correria dá pra sorrir, vez em quando. Sossega, vive, realiza, homem. Parei de tentar mudar o mundo, sabe? Resolvi aproveitar algumas coisas, até então intocadas. Lindas, doces, frescas. Assim que as conhecer melhor te apresento. Deus disse que me ajudaria, para que eu não desistisse de ser quem sou. Assim que me conhecer melhor, não tenha dúvidas: me reapresento. 
Um beijo enorme. Vê se cuida do seu agora, mas não esquece o amanhã, amigo. Dele é que provirá o ontem.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Mais vale um pássaro que canta, que dois pássaros mudos.

Você nem sabe, mas noite passada sonhei com a gente. Foi cômico, porque no sonho nada tinha mudado: você não tinha ido embora e eu ainda podia descansar a cabeça sobre seu ombro sem que ninguém atrapalhasse.
Lembrei da epopeia desconexa de nossas vidas e achei até engraçado que estivesse se repetindo. O mundo envolvia nossos braços e eu já não podia te sentir.
Nós não pedimos por isso (ou pedimos), mas hora ou outra a física, a química e a má gramática da vida (um salve à magia do Teatro) vai nos dissipar. O que fica disso, meu bem? Fica você em mim. Você e todos os seus olhares. Olhares ferinos, míticos, suaves, sadios. Fica você e toda a sua leveza, sua dureza, sua vida, seu sorriso. Fica você e meu não amor. Meu eterno não amor que, por não ser nada, não acaba. E sabes, tu sabes.
"O que é um pássaro na gaiola?" com esse pensamento te libertei de mim pra não pesar, pra não calhar, pra não acabar. Com esse pensamento te mantive em mim, livre. Pra ficar ao seu lado eu precisava ajeitar o ninho. Pra conseguir te ouvir, o pássaro precisou não cantar. E mais vale um pássaro que canta,  que dois pássaros mudos.
Realinhei o mundo, sem muita dor, pra te ter por perto sempre. Pra não ficar deserto. Pra continuar concreto. Pra te amar mais...
Realinhei o mundo pra você continuar achando graça, pra perder-se na praça, pra abraçar a palhaça, que se vale de sorrisos. E versos.

Não é preciso dizer que te amo.
Tanto.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Nós: dós e rés.

Daríamos uma bela história. Não dessas classe "C", cinema barato. Nós seríamos nós. Nós desataríamos os nós. Nós a sós, em dós e rés.
Mas nós,
não mais sós,
desatamos os nós
que antes eram laços,
pedaços,
abraços.

E quase esvaiu-se.
E o quase, quase me mata,
arrebata, ingrata.
A dança acabou?

Menina, eu te queria em postas, destroçada, acabada, nula, suada, murcha, presa, doida, arrebatada, desesperança, minha.


"Eu sei, não é assim, mas deixa eu fingir e rir." (Los Hermanos)

domingo, 5 de junho de 2011

Verde, cor de mato.

Hoje eu olhei meu email às cinco da manhã pra ver se você tinha deixado algo. Nada. Olhei mil vezes durante a noite o celular. Nada. Você não admitiu importância ao fato.
Ontem eu fui àquela casinha verde que compraríamos daqui a dois meses. “No meio do mato” como gosta de dizer. Fiquei algumas horas na varandinha, esperando que algo me ocorresse – não sei exatamente o que eu queria, só sei que não queria morar ali com você. Não queria nada ali com você. Foi quando resolvi te ligar e dizer que tinha cancelado nossa compra e nosso compromisso. Fiquei esperando sua voz desesperar, me implorando que não fizesse isso, que eu era seu ponto de partida, sua luz, e que – por Deus – não te deixasse. Você não disse.
Foi a prova que eu precisei de que não me amavas de verdade. E se ama de mentira, mulher? Não sei. Talvez fosse de mentira o que eu sentisse. Meio utópico, meio fuga, sabe? Eu te usei pra fugir desse mundo de preto e branco em que vivia, pra chamuscar com algum colorido minha vida. Você me parecia a tinta perfeita. Verde, cor de mato. A tranqüilidade era a melhor parte da nossa relação estabilizada. Sentia-me bem compartilhando contigo minha rotina e parte do meu passado. Você era meu futuro alinhado. Alinhado, que cômico, logo eu que sempre gostei de tudo fora dos conformes.
Eu tinha lido em algum lugar de frases melódicas e preestabelecidas que ‘quem ama, não te deixa ir’, o que entrou em contradição com o dito  ‘deixe livres as borboletas’. Vai entender... A verdade é que você não queria ir, então eu não deveria te forçar. Provavelmente já tinha percebido esse meu jeito de mandar as coisas à merda, quando estavam bonitas e sutis demais. É verdade, eu sou compulsivamente louca pela loucura. Gosto da desordem dos fatos, gosto um tanto de perversidade, mista de imaturidade e desdém. Dizer que você era bom demais pra mim é um pouco ambicioso. E mesmo não querendo te machucar, tenho que dizer o certo: tens a característica que me dá medo e, por conseguinte, insegurança. Tens a característica assombrosa, responsável e a única que eu (percebi) vivo me afastando. Você é o cara certo.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Mariana.

Ontem a campainha tocou. Do jeito que estava - cabelo e roupa desgrenhados - fui atender. Meus olhos não acreditaram no que viram, até que meu cérebro me alertou que eu não estava sonhando e já podia me mover. Mariana estava na minha porta e, sem pedir licença entrou, assim como fez meses antes. Ninguém pronunciou uma só palavra. Ah, minha menina, porque foi embora daquele jeito?
Alguns segundos seguidos de olhares se passaram e depois ela foi até a cozinha e pegou um copo d'água. Eu a segui com a certeza de que ela tinha algo a me dizer. Copo, água e orgulho ao chão. Sem mais, nem menos, Mariana me deu o beijo que me fez descobrir que eu tinha um coração em cada nó de veia do corpo. Um beijo melhor que qualquer noite de sexo casual que havia tido em quatro meses, desde que ela se fora. Tive certeza de que sabia do abalo que causava em mim quando eu, sem me dar conta, deixei a ponta dos dedos passar por seu rosto suado de sol e nervoso. Em milésimos de segundos eu já estava completamente entregue, novamente. E em um pouco mais que isso já não a tinha em meus braços, fracos.
Não quis abrir os olhos e vê-la saindo por onde tinha entrado a breves minutos. Preferi ficar saboreando o gosto pelo qual implorei solenemente pra que tivesse de volta.
Deixei o copo no chão e hoje estou aqui na praia. Com o mar. E Ana. Com mar e Ana. Mar e Ana. Mariana...
Não, é só Ana, mesmo. Parece coisa feita pra eu não esquecê-la. Mas, digo-lhe: poderia ser Lourdes, Gabriela, Ângela... eu não a tiraria das minhas fantasias. Tenho o mar e Ana, agora. Calmos, os dois em maré baixa. E é também por isso que não a esqueço. Mariana, diferente de outros sujeitos próprios é mar agitado, revolto, ondas quebradas. Vai e volta. E eu, fico, fico. Espero.